Meu quarto, 15 de agosto de 2009.
Romário,
Sei que há muito não conversamos, desculpa por isso. Vim dar-lhe notícias suas. E espero que goste de ouvir. Não tenho nenhum propósito fixo, nenhuma finalidade além de reatar nossos laços.
Você que ficou preso ao passado não consegue entender o presente, não anseia pelo futuro. Perdeu muita coisa, não estava comigo nas horas difíceis que passei ultimamente. Superei, mas não estavas comigo, dormias profundamente. Temo não precisar mais da sua presença ao meu lado, meu querido amigo, não tenha raiva de mim, perdoe-me até pela franqueza das palavras.
Ao fim de tudo, quem quis partir foi você, mas ainda há algo muito forte que nos liga, há uma força que nos une e nos mantém intimamente presos um ao outro: A música.
Sei que ela o toca assim como a mim. Então deixemos que ela aja como sempre. Acorda, venha comigo, vem por aqui, o caminho já está feito, é só prosseguir, não vou te deixar só.
Espero você aqui, dentro de você, nesse chão que nunca mais pisou. Então denovo seremos um.
Com saudades,
Romário.
Não me faça pedir duas vezes porque não sei seduzir. Não tenho o que você precisa pra eu ser ouvida como um clichê.
Não me faça beijar duas vezes, não me faça sentir novamente porque seria cruel saber que depois de ter bem vivido, nada perdí. Não vou segura o gozo para não te dar o gosto de ver meu corpo se retorcer, se é só isso que quero ter de você.
Venham todas as mãos e loucuras que você tiver para me dar e se não tiver nenhuma, serei afluente de gozos tresloucados no seu leito inflamado de calor.
Roamos pedras
Chupemos os dedos
Corramos a nos espojar na lama da piedade humana.
Urubus vestidos de anjo.
Quais os encantos por baixo de suas longas asas infectas?
Entorpecer sentidos, atenuar raciocínios, anestesiar indagações,
Embaçar a visão, embriagar profecias,
Vetar métrica e rima das poesias noturnas, vadias,
Todavia, viva em circunstâncias reais.
Da pista de dança faço a minha praça de alimentação, mas com a mudança do tempo tenho me sentido uma estranha, não sei se é a fumaça do cigarro ou o fruto de minhas entranhas.
Nada mais me espanta, tudo me atravessa e sobra. São vozes, refletores e gestos a querer me confundir. Espero por mais, pergunto:
-Que mais? E recuo à farça.

Bom dia,
" Romário, acorda e vai ver o dia! "
Acordei, fui ver o dia nascer feliz, ou ver, feliz, o dia nascer.
Arrumei meu quarto, pus o Zoé debaixo do braço e saí pela rua a fora. Toquei as mais lindas melodias que eu conheço, inventei outras pelos caminhos. Juntei pedras engraçadas, atirei-as às poças de água.
Deitei na grama. Sonhei acordado com um tempo em que meus filhos possam fazer isso também. Brinquei com meus amigos e com eles fiquei por horasa fio conversando sobre algo que não me recordo. Fui feliz, por ver o dia, por deixar o tempo por mim passar e seguir com ele até que se acabasse.
À medida q as horas passavam, ficava em mim a certeza que havia feita a coisa certa.
Saí andando pela avenida mais próxima às serras onde o sol, por detrás, se esconde.
E por ela andei até achar o lugar perfeito: uma calçada com uma árvore ao lado.
Sentei, com minha amiga e com meus pensamentos focados na imensidão daquele momento.
Pessoas passavam apressadas em seus carros, motos, bicicletas, correndo também.
Não entendo como ignoravam completamente o espetáculo gratuito que ocorria.
Fiquei lá, até que todo o sol tivesse baixado por detrás daquela parede viva e cheia de beleza.
Não posso dizer tudo o que passou em minha mente, por não lembrar. Talvez nada pensei, nada lembrei. Olhei, apenas. Amei, apenas.
sim, consigo sentir isso. Tenho sentimentos, que bom. Sou humano, não demasiado. Na medida necessária.
Ao fim de tudo, encontro-me à cama, escrevendo mais uma vez. Ouvindo NOrah Jones.
À espera de mais um dia com esse ou melhor,quem sabe?
Amei, apenas.

Ao teu toque fujo de mim
Quando te vejo divago na imensidão
Ses olhos me ferem, me acalmam.
tão doces olhos não podem mal algum,
Além do pior de todos os males:
Fazer-me amar.
Qual amor? É bem mais que uma dor.
A dor de amar
Tão exaltada pelos poetas
Quanto repudiada por mim.
Deixe-me desamar.
Pois se ele me faz esuqecer quem sou,
Não sou feliz e nem posso ser com ele.
Prefiro a incerteza da vida, mil vezes mais
Aos sintomas desse amor.
Prefiro o toque do meu lençol
A ouvir, por tí, ofegante minha respiração.
Porque devolveste carne e sentimentos ao meu coração?
O vazio me bastava.
Amor? É só mais uma dor.

